"Se for pra ficar, que seja leve"

 

A cidade corre.

Corre tanto que, às vezes, parece que vai me engolir se eu não correr junto. É gente que não se olha, buzina que não respeita, fila que não anda — mas o relógio, esse, não para nunca.

Durante muito tempo, tentei acompanhar. Andava rápido, pensava acelerado, dizia “sim” pra tudo com medo de perder alguma coisa. Me confundia achando que produtividade era sinônimo de valor. Mas o corpo cobra, o coração fala, e a vida dá seus sinais. E eu ouvi.

Só que ouvir também é um desafio quando o mundo insiste em dizer que seu corpo não cabe.
Eu sou uma mulher gorda.
E sei bem o que é se sentir indesejada, desacreditada, descartável. Desde nova, me diziam que eu precisava “me encaixar” — primeiro nas roupas, depois nos espaços, e por fim nas expectativas alheias.

Mas a verdade é que, quando parei de esperar me encaixar pra viver, comecei a experimentar tudo aquilo que antes parecia proibido pra mim.


Festival? Eu vou.
Sozinha? Também.
Me arrumar toda pra mim mesma? Sempre.
No meio da multidão, eu caminho com segurança e estilo. Porque o corpo que eles disseram que não dava conta, caminha 13km por dia em um evento — e ainda dança sorrindo no final.
(Quando foi a última vez que você caminhou tudo isso?)

A cidade ainda corre.
Mas eu não corro mais pra agradar.
Hoje, eu caminho no meu ritmo.
Olho as vitrines, reparo no céu (mesmo quando ele tá cinza) e, se eu quiser parar pra tomar um café na calçada, eu paro. Porque eu entendi que viver também é desacelerar. Não é sobre perder tempo, é sobre escolher onde eu coloco minha energia.

Ser eu mesma é meu melhor passo.
E o resto? Eu danço.


Escrito por Nah de Freitas, sempre na pista

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